Há bocado ao almoço houve festival do grosso.
O Gonçalo agora está numa de não comer peixe. Ele, que comia peixe como se fosse o prato preferido!
Depois de muita brincadeira da parte dele, de muitos "come o peixe Gonçalo" da minha parte e de muitas inspirações e expirações da minha parte também, passei-me, arranquei-o da mesa, pu-lo no chão e disse-lhe:
"Vai-te embora da cozinha e nem te atrevas a ligar a televisão. Volta só, se, e quando, quiseres comer. E fica sabendo que se não comeres agora, comes ao lanche."
Estava mesmo possuída. Ele chorava, claro.
Deve ter percebido que eu não estava a brincar, porque foi direto para o quarto e pôs-se a ver livros. A ver livros e a chorar.
Eu fiquei na cozinha com o Marco, a acabar de almoçar, e com o coração do tamanho de uma ervilha. Mas estava plenamente convicta que ele iria mesmo comer ao lanche tudo o que não tinha comido. E se não quisesse comer, não lhe daria mais nada.
Não sei se o conseguiria ou não, porque passados uns 10 minutos apareceu um Gonçalo choroso na cozinha.
Perguntei-lhe, com um tom seco e ar de durona, mas com o mesmo coração pequenino, se ele estava ali para comer. Acrescentei que, se não fosse o caso, podia ir-se embora outra vez.
Ele, a choramingar ainda, disse que sim, que ia comer.
Sentei-o na cadeira dele e ele lá comeu o resto da sopa que tinha deixado e, a muito custo, comeu também metade do peixe que estava no prato.
Só Deus sabe o quanto me custou ter sido tão dura com ele e, acreditem, por dentro eu chorava tanto ou mais do que ele. No entanto, a verdade é que já não sei o que fazer. O peixe faz falta e ele adorava. Não é possível que tenha deixado de gostar de um dia para o outro!
Já o Marco, coitado, estava calado (temos um pacto de não interferir nestas situações ou, a fazê-lo, não desautorizar o outro), mas eu via perfeitamente que ele se estava ali a contorcer-se, com pena do miúdo e com uma vontade louca de lhe dar mimos.
Se alguém tiver algum truque, este lado agradece! Dispenso estes festivais. Todos nós, decerto!